08/02/2013


Washington Novaes* (jornalista Estadão)


* Publicado no Estado de S. Paulo com resenha recém-editado livro Cidades Sustentáveis, Cidades Inteligentes" (Brookman, 2012), do professor Carlos Leite 

Informações do livro: 

** Imagens de Tuca Vieira












Pois não é que, enquanto o eleitor se pergunta, aflito, em quem votar para resolver os dramáticos problemas das nossas insustentáveis grandes cidades, um pequeno país de 450 mil habitantes - a África Equatorial - anuncia (Estado, 10/6) que até 2025 terá construído uma nova capital "inteiramente sustentável" de 40 mil casas para 140 mil habitantes, toda ela só com "energias renováveis", principalmente a fotovoltaica? Mas como afastar as dúvidas do eleitor brasileiro que pergunta por que se vai eliminar uma "florestal equatorial" - tão útil nestes tempos de problemas climáticos - e substituí-la por áreas urbanas?

Mas cabe repetir o que têm dito vários pensadores: é preciso mudar o olhar; nossas políticas urbanas se tornaram muito "grandes", distantes dos problemas do cotidiano do cidadão comum; ao mesmo tempo, muito circunscritas, são incapazes de formular macropolíticas coordenadas que enfrentem os megaproblemas. No caso paulistano, por exemplo, é preciso ter uma política ampla e coordenadora das questões que abranjam toda a região metropolitana; mas é preciso descentralizar a execução e colocá-la sob a guarda das comunidades regionais/locais. Não custa lembrar que há alguns anos um grupo de professores da Universidade de São Paulo preparou um plano para a capital paulista que previa a formação de conselhos regionais e subprefeituras, com a participação e decisão de conselhos da comunidade até sobre o orçamento; mas as discussões na Câmara Municipal levaram a esquecer o macroplano e ficar só com a criação de novos cargos.

Bem ou mal, o tema das "cidades sustentáveis" entra na nossa pauta. Com Pernambuco, por exemplo, planejando todo um bairro exemplar em matéria de água, esgotos, lixo, energia, telecomunicações, em torno do estádio onde haverá jogos da Copa de 2014, inspirado em Yokohama (Valor, 24/6), conhecida como "a primeira cidade inteligente do Japão". E até já se noticia (12/7) que o Brasil ocupa o quarto lugar no ranking de "construções sustentáveis" no mundo, depois de Estados Unidos, China e Emirados Árabes - já temos 52 certificadas e 474 "em busca do selo", por gastarem 30% menos de energia, 50% menos de água (com reutilização), reduzirem e reciclarem resíduos, além de só utilizarem madeira certificada e empregarem aquecedores solares.

"As cidades também morrem", afirma o professor da USP João Sette Whitaker Ferreira (Eco 21, junho de 2012), ressaltando que, enquanto há 50 anos se alardeava que "São Paulo não pode parar", hoje se afirma que a cidade "não pode morrer" - mas tudo se faz para a "morte anunciada", ao mesmo tempo que o modelo se reproduz pelo País todo. Abrem-se na capital paulista mais pistas para 800 novos automóveis por dia, quem depende de coletivos gasta quatro horas diárias nos deslocamentos, os bairros desfiguram-se, shoppings e condomínios fechados avançam nos poucos espaços ainda disponíveis, 4 milhões de pessoas moram em favelas na região metropolitana.
Não é um problema só brasileiro. Em 1800, 3% da população mundial vivia em cidades, hoje estamos perto de 500 cidades com mais de 1 milhão de pessoas cada uma, quase 1 bilhão vive em favelas. Aqui, com perto de 85% da população em áreas urbanas, 50,5 milhões, segundo o IBGE, vivem em moradias sem árvores no entorno (26/5), seis em dez residências estão em quarteirões sem bueiros, esgotos correm na porta das casas de 18,6 milhões de pessoas. Quase metade do solo da cidade de São Paulo está impermeabilizada, as variações de temperatura entre uma região e outra da cidade podem ser superiores a 10 graus (26/3).
Estamos muito atrasados. Na Europa, 186 cidades proibiram o trânsito ou criaram áreas de restrição a veículos com alto teor de emissão (26/2), com destaque para a Alemanha. Ali, em um ano o nível de poluição do ar baixou 12%. Londres, Estocolmo, Roma, Amsterdam seguem no mesmo rumo, criando limite de 50 microgramas de material particulado por metro cúbico de ar, obedecendo à proposta da Organização Mundial de Saúde. No Brasil o limite é três vezes maior.
E há novos problemas claros ou no horizonte, contra os quais já tomaram posição cidades como Pyongyang, que não permite a ocupação de espaços públicos urbanos por cartazes, grafites, propaganda na fachada de lojas, anúncios em néon (New Scientist, 19/5). É uma nova e imensa ameaça nos grandes centros urbanos, atopetados por informações gráficas e digitais projetadas. Quem as deterá? Com que armas, se as maiores fabricantes de equipamentos digitais lançam a cada dia novos geradores de "realidade ampliada", a partir de fotos, vídeos e teatralizações projetados? O próprio interior das casas começa a ser tomado por telas gigantescas.
Um bom ponto de partida para discussões sobre as áreas urbanas e seus problemas pode ser o recém-editado livro Cidades Sustentáveis, Cidades Inteligentes" (Brookman, 2012), em que o professor Carlos Leite (USP, Universidade Presbiteriana Mackenzie) e a professora Juliana Marques Awad argumentam que "a cidade sustentável é possível", pode ser reinventada. Mas seria "ingênuo pensar que as inovações tecnológicas do século 21 propiciarão maior inclusão social e cidades mais democráticas, por si sós". A s cidades - que se tornaram "a maior pauta do planeta" - "terão de se reinventar", quando nada porque já respondem por dois terços do consumo de energia e 75% da geração de resíduos e contribuem decisivamente para o processo de esgotamento de recursos hídricos, com um consumo médio insustentável de 200 litros diários por habitante. "Cidades sustentáveis são cidades compactas", dizem os autores, que estudam vários casos, entre eles os de Montreal, Barcelona e São Francisco. E propõem vários caminhos, com intervenções que conduzam à regulação das cidades e à reestruturação produtiva, capazes de levar à sustentabilidade urbana.

Por aí não se vai a lugar nenhum - a não ser a problemas mais dramáticos.
* Publicado no Estado de S. Paulo

27/11/2012

Territórios Informais Inteligentes: Heliópolis Seminário Aberto





O objetivo do projeto é desenvolver novos instrumentos de comunicação e co-criação de soluções em design, arquitetura e urbanismo nos territórios informais junto à comunidade local e a partir de sua rica dinâmica: práticas criativas, iniciativas "botton-up", externalidades espaciais positivas.


Ele nasceu em fevereiro de 2011 após uma imersão em Heliópolis minha, do professor urbanista Brian MacGrath da Parsons School for Design de Nova Iorque e do Paulinho, da ONG CEDECA/CASADEZ de Heliópolis, com quem convivo há alguns anos nas minhas incursões à Heliópolis. Eu e Brian saímos daquela visita com a ideia de iniciar um projeto que atendesse ao desafio de desmitificar o chamado da Bienal de Arquitetura de Roterdã do ano passado das "Smart Cities": estabelecemos então a ideia de "Smart Inform
al Cities". Desenvolver formas alternativas, "low cost", mais acessíveis, de tecnologia da informação e comunicação aplicadas ao território informal para mapear e externalizar práticas criativas.


Logo em seguida, além da FAU Mackenzie e Parsons, a parceria incluiu a Academia de Artes, Arquitetura e Urbanismo de Amsterdã e a HABI/SEHAB, com apoio importante da Superintendente Elisabete França.


O projeto acabou sendo exposto na Bienal com boa repercussão e tem sido publicado aqui e em Nova Iorque e Amsterdã, onde o mostramos em importantes eventos.


Realizamos dois intensos workshops em Heliópolis e no Mackenzie nestes dois anos e aumentamos nossas parcerias: alunos da FAU Mackenzie da graduação e da Pós; alunos de Heliópolis do curso de responsabilidade social da UNAS-SENAC; ETEC-Heliópolis; Centro de Convivência e UNAS-Heliópolis; ArchLink; Universidade Católica de Leuven e Jeff Anderson/Biourban Ocupação Criativa; Natalia Garcia/CidadeParaPessoas; Marcos Rosa/Microplanning; Reinaldo Bulgarelli/FGV. A agência de inovação Mandalah é parceira desde o início.


Nosso foco não é habitação social - apesar dela estar sempre presente com suas fortes urgências - mas antes a impressionante força da urbanidade que se encontra em territórios como Heliópolis, com um contagiante senso de comunidade que a cidade formal vêm perdendo, infelizmente. A crescente pujança de iniciativas que emergem deste território e seus atores apaixonados e as oportunidades de novas formas de urbanismo e urbanidade tem sido nossas inspirações: inclusão sócio-territorial, cidade criativa, inovação informal. Acreditamos que as megacidades do seculo 21 serão reinventadas pela força dos territórios informais como Heliópolis. 

info: carlos@stuchileite.com

10/01/2012

Megacidades & Desenvolvimento Sustentável I Megacity Sustainability + Smart Informal Territories








O desenvolvimento das megacidades contemporâneas impõe os desafios e oportunidades do desenvolvimento sustentável e da gestão inteligente. Este Blog compartilha idéias e cases destas questões que são a pauta do mundo no século 21, o Planeta Urbano.  Em megacidades como SP, emergem os Territórios Informais Inteligentes.
Editado por: Carlos Leite, Arq. Urb., PhD, professor e palestrante, consultoria e projetos em desenvolvimento urbano sustentável.
Grupo Megacidades & Desenvolvimento Sustentável: Laboratório dos Indicadores de Sustentabilidade Urbana + Laboratório de Co-criação de Soluções em Territórios Informais (SITlab)

Sustainable Cities are Smart, Intelligent, Innovative and Creative Cities. In megacities like Sao Paulo, it includes the Smart Informal Territories.
The development of contemporary Megacities requires the challenges and opportunities of sustainable development and intelligent management. This Blog shares ideas and cases on these issues, the essential questions of 21rst Century, the Urban Planet.
Edited by Carlos Leite, Arch, MUD, PhD, Professor, Consultant and Lecturer on City Sustainability and Intelligence and Environmental Development and Management. Sao Paulo.
Megacity Sustainability Indicators Group: Urban Sustainability Indicators Lab + Smart Informal Territories Lab: SITlab


Videos      Slideshow      Entrevista      Twitter      Facebook      Stuchi e Leite Projetos      contato     

Cidades do Futuro: Sustentáveis e Inteligentes: TEDx video:

Smart Informal Territories Lab I SITlab I Heliopolis I Mackenzie_SP Parsons_NY Amsterdam Academy



Smart Informal Territories Lab I SITlab is a concept research developed by carlos leite, mackenzie presbyterian university, sao paulo
more info: info@stuchileite.com 

Indicadores de Sustentabilidade Urbana I Megacity Sustainability Indicators

versão completa I download gratuito I Fundação Dom Cabral I Núcleo de Sustentabilidade na Construção I Coordenação do trabalho: Carlos Leite e Rafael Tello:

english version I synthesis I coord: Carlos Leite:









20/07/2011

As Cidades do Conhecimento

Experiências internacionais diversas mostram fluxo do conhecimento nas cidades: entrevista com Carlos Leite ao Jornal ComCiência, Laboratório de Jornalismo/Unicamp, fev 2011



Centros de Informação das Cidades já existem em diversas delas (Chicago, 2010, C.Leite).

Experiências internacionais diversas mostram fluxo do conhecimento nas cidades

Por Simone Pallone

Há diferentes situações em que um lugar pode ser reconhecido como “cidade do conhecimento”. Salamanca, localizada na região de Castela e Leão, na Espanha, é assim chamada devido à grande atenção que se dá à cultura, às artes e às ciências. Possui vários museus e conserva monumentos da Idade Média em perfeito estado. Em 1988, a cidade foi nomeada Patrimônio da Humanidade pela Unesco e, em 2002, Capital Europeia da Cultura. Além disso, a cidade possui uma das mais antigas universidades do mundo – a Universidade de Salamanca , fundada em 1218 –, e atrai milhares de estudantes todos os anos, interessados nos cursos desta universidade, nos da Universidade Pontifícia e nos diversos centros espanhóis de ensino. Não são poucos os atributos que levam a cidade ser tomada como um local de saber e de conhecimento.

Em outro enfoque da noção de “cidade do conhecimento”, as cidades que abrigam polos ou parques tecnológicos também recebem essa denominação ou algo próximo – cidades inteligentes, cidades da ciência, cidades criativas – por apresentarem um arranjo no qual o fluxo do conhecimento atravessa várias instâncias, do planejamento urbano às atividades econômicas que ali se concentram. O empreendedorismo e a inovação tecnológica são fortemente estimulados nessas áreas, abrindo oportunidades de empregos, principalmente de alta qualificação, promovendo um incremento na economia e benefícios de ordem social e cultural.

Esse modelo, que teve início nos anos 1970, está bastante disseminado, estabelecido principalmente pelas atividades ligadas à economia do conhecimento. Tecnologias de informação e comunicação são o principal “tema” desses polos. Mas há outros. O arquiteto e urbanista Carlos Leite, professor da Universidade Presbiteriana Mackenzie, dá um exemplo. Ele conta que visitou Mission Bay , um bairro de São Francisco, nos Estados Unidos, pela primeira vez há seis anos, e que a transformação no local era ainda objeto de dúvidas entre os especialistas acadêmicos, que a viam com reticência. Mas, segundo ele, “instalava-se naquele momento o que chamamos da mola propulsora da regeneração urbana e reestruturação produtiva, o elemento-âncora: o novo centro de pesquisas em biotecnologia da Universidade da Califórnia: cento e setenta mil m2 de laboratórios e centros de pesquisa”.

Essa é outra característica importante desses empreendimentos. Muitos deles representam uma estratégia para regenerar antigas áreas industriais que entraram em declínio com o surgimento da cidade “pós-fordista”, buscando-se desenvolver ali atividades inovadoras, como os clusters de inovação e TIC, conforme explica Leite. E onde havia desconfiança, hoje há um novo bairro, “moradia para a classe média, em prédios de quatro a dez pavimentos, em meio à mistura de usos – cafés, comércio, serviços”. O projeto urbano está sendo realizado em 220 hectares, promovendo uma reestruturação produtiva de uma antiga área industrial que se tornou obsoleta, uma regeneração urbana em metrópole contemporânea que tem como força motriz o cluster de biotecnologia. Esse arranjo representa a concentração de capital de talento humano, educacional, empreendedor. Trata-se de “uma cidade reinventada; cidade inovadora; cidade criativa”, afirma.

A Espanha abriga um projeto com essas mesmas características. É o Projeto 22@ Barcelona , um dos mais jovens polos tecnológicos da Europa, localizado em Poblenou, um bairro tradicional que se tornou uma área degradada com a saída das grandes indústrias. O projeto, uma iniciativa do governo local e do setor privado,teve início em 2000, com o objetivo de abrigar empresas, universidades e centros de pesquisa em um polo de tecnologia que pudesse, ao mesmo tempo, desenvolver a economia e dar uma nova vida ao Poblenou.

Governo-universidade-empresa

O modelo dos polos tecnológicos foi sacramentado na academia como a “tripla hélice” – em alusão à “dupla hélice” do DNA –, termo cunhado por Henry Etzkowitz e Löet Leydesdorff, em meados dos anos 1990. Segundo Etzkowitz afirma em entrevista concedida à revista Conhecimento & Inovação, o conceito envolvendo a tríade governo-universidade-indústria se baseou no Vale do Silício, na Califórnia, que se tornou um exemplo clássico. Ali, a partir do conhecimento gerado nas Universidades da Califórnia (UCLA) e Stanford, desenvolveram-se empresas de alta tecnologia que mantiveram e mantêm parcerias com centros de pesquisa no desenvolvimento de novos produtos, na utilização de laboratórios, e também no aproveitamento da mão-de-obra qualificada, que as universidades formam todos os anos. A participação do governo nesse tipo de arranjo se dá pelo financiamento de pesquisas, apoio à universidade, e por meio de programas de financiamento direto às empresas. Alguns dos negócios surgidos na região são nada menos que Intel, Apple, Microsoft, e-Bay, Facebook, todos de alta intensidade tecnológica.

No caso do 22@ Barcelona, o apoio governamental começou com a decisão de dar uma chance para o Poblenou se reinventar. Fábio Duarte, arquiteto e urbanista, professor da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR), que visitou recentemente a região, fala com entusiasmo da experiência. Ele salienta como um ponto forte a mudança de foco da produção de máquinas industriais – que ocuparam a atenção e a economia local nos anos 1960 – para a produção de softwares e conteúdo multimídia.

O projeto está completando dez anos, mas somente em 2005 foi modificado o zoneamento industrial para múltiplo uso, podendo-se construir residências ou empresas. O projeto incluiu a autorização para construções de diferentes tamanhos, também de acordo com o tipo de uso, e com cobranças diferenciadas. Deste modo, a área permite que se desenvolvam atividades diferentes num mesmo lugar: trabalho, moradia, ensino, serviços. Em termos de sustentabilidade, esta proximidade é bem vinda, na medida em que permite reduzir o consumo de recursos, como os combustíveis usados no transporte, por exemplo.

Essa preocupação, que segundo Duarte, todo projeto urbanístico deveria considerar, está presente no 22@. O tecnopolo catalão foi pensado de forma a minimizar os efeitos de sua ocupação, pensando-se na eficiência energética e no uso de água. Além disso, “todo o lixo é recolhido e o que não pode ser reciclado segue para uma central termoelétrica para produzir energia”, diz ele. O projeto prevê que para cada 25% da área construída, deve haver uma área verde, pública, com praças. Mesmo nos lotes individuais, há uma exigência de se manter uma área verde. Outro ponto a favor da sustentabilidade é o incentivo ao transporte público e ao uso de bicicletas para se locomover. Barcelona é atravessada por uma extensa malha cicloviária, com pelo menos 20 estações de bicicletas para alugar, sempre próximas das estações de metrô; se o uso não ultrapassar meia hora, não é pago. Além disso, acrescenta Duarte, para se chegar no 22@, a prefeitura estendeu duas linhas de bonde elétrico e colocou mais uma linha de metrô. A mensagem é para que o veículo individual seja o usado o menos possível.

A opinião de Leite, da Universidade Mackenzie, segue a mesma linha. Segundo ele, “sob o prisma do desenvolvimento urbano sustentado, voltar a crescer para dentro da metrópole e não mais expandi-la é outro aspecto altamente relevante nesses casos: reciclar o território é mais inteligente do que substituí-lo. Reestruturá-lo produtivamente é possível e desejável no planejamento estratégico metropolitano. Ou seja: regenerar produtivamente territórios metropolitanos existentes deve ser face da mesma moeda dos novos processos de inovação econômica e tecnológica”, diz o urbanista, que é também editor do blog  Cidades Sustentáveis + Inteligentes.

As cidades inteligentes, segundo Leite, "expressam a necessidade de uma reformulação radical das cidades na era da economia global e da sociedade baseada no conhecimento". A capacidade de inovação se traduz em competitividade e prosperidade, mas para que isso ocorra, alguns parâmetros são fundamentais, como "a presença da nova economia baseada em tecnologia, um sistema de mobilidade inteligente, ambientes inovadores/criativos, recursos humanos de talento, habitação acessível e diversificada, e sistemas inteligentes e integrados de governo (transporte, energia, saúde, segurança pública e educação). Leite diz ainda que é preciso estar atento às perspectivas que as tecnologias verdes aliadas à gestão inteligente estão abrindo no desenvolvimento urbano de novos territórios como Masdar  no Dubai, desenvolvida por Norman Foster.

Fábio Duarte, da PUCPR, também ressalta a importância de se recriar áreas degradadas em termos econômicos. “Essas regiões antigas possuem serviços públicos instalados que ficam muito caros com a desocupação. Há menos pessoas usando e a prefeitura tem que continuar bancando. Investir em subsídios para ocupação de áreas abandonadas é mais interessante para a administração da cidade. Assim, geram emprego e consumo no local, além de arrecadação de impostos”.

Atividades econômicas

As atividades desenvolvidas no 22@, em Barcelona, se concentram principalmente na produção de softwares, games e tecnologia para a área médica. Apesar de não representarem a principal vocação da região, que sempre foram o design e a moda, o governo resolveu induzir o seu desenvolvimento, vislumbrando a possibilidade de atingir, além do próprio país, o mercado da América Latina, para onde já eram distribuídos aplicativos multimídia para área de comunicação. As atividades se concentram em cinco eixos: mídias (TV, rádio, web), tanto aplicativos como conteúdo; TICs (tecnologias de comunicação e informação), produzindo celulares, mas principalmente testando a usabilidade desses equipamentos; design gráfico e produtos, nos quais o local já tinha tradição, como na produção de móveis; tecnologias para energia, com especial foco na eficiência energética; e tecnologias para a área médica.

Laboratórios técnicos e escolas de engenharia também foram atraídos para o tecnopolo, segundo Duarte, assim como o Ministério das Comunicações e estações de TV e rádio. Alguns desses foram instalados em edifícios novos, construídos para este fim, mas outros, como o Ministério das Comunicações e as universidades estão ocupando antigos prédios reformados. A instalação do Museu do Design da Catalunha no 22@ reforça e valoriza essa vocação da cidade, além de promover o local também como um ponto turístico.

A produção de conteúdos multimídia é também o foco da Cidade Multimídia, tecnopolo localizado em Montreal, na província de Quebec, no Canadá. Em um artigo  publicado na revista São Paulo em Perspectiva, Duarte conta que o governo de Quebec, “atento às oportunidades globais do mercado de software, e à fuga de talentos jovens da área de informática para os Estados Unidos e ao potencial tecnológico interno existente, lançou no início de 1997 a política dos Centros de Desenvolvimento de Tecnologia de Informação – CDTI, apoiada em medidas legais e financeiras. Em menos de um ano, mais de 200 empresas já haviam se cadastrado no programa”.

Entre os fatores apontados no artigo de Duarte como definidores do sucesso da experiência canadense – além das vantagens históricas dos clusters: proximidade geográfica entre empresas, gerando facilidades em relação a fornecedores, indústrias, acesso a mercados, formação de profissionais na área, entre outros – está a articulação com a Associação de Produtores de Multimídia de Quebec, com o Centro de Promoção do Software de Quebec e com a Alliance Numeric QC, que dão o suporte para o desenvolvimento e a promoção das empresas ligadas ao setor de multimídia.

Em relação à autonomia das empresas, o programa de incentivos do CDTI fez toda a diferença. “O programa tem como pré-requisito que as integrantes sejam novas, portanto com liberdade de decisão, sem passar por grandes corporações. Ademais, as trocas de informações em ambientes informais estão suportadas por um empreendimento urbanístico que privilegia a mistura de usos em uma área restrita, de unidades das universidades locais aos edifícios de escritório, dos cafés aos edifícios residenciais. Isso propicia um convívio intensivo entre os profissionais, por concentrar as empresas da área multimídia em um mesmo setor, como também um convívio extensivo, pela diversidade de usos que proporciona justamente a troca de informações em âmbito informal”.

Agência de desenvolvimento urbano-econômico

O que as experiências de 22@, em Barcelona, Mission Bay, em São Francisco, e Cidade Multimídia, em Montreal, têm em comum? Para Carlos Leite, é o que nos falta no Brasil são agências específicas de desenvolvimento urbano-econômico. Ele diz que Montreal é o caso pioneiro, mas também o de menor escala. A cidade já possuía essa vocação para implementar um cluster de diversas mídias, inclusive cinema. Ele avalia que no antigo bairro fabril do Poblenou, montou-se o projeto 22@ com uma estratégia radical: “buscar em dez anos implementar o Vale do Silício da Europa". Já Mission Bay, em São Francisco, ele aponta como o desejável meio-termo – experiência que poderia ser replicada na Operação Urbana Diagonal Sul em São Paulo –, ao aliar à vocação territorial existente uma atração de porte de unidade acadêmica e de pesquisa de ponta, com laboratórios que atuam no ramo e programas usuais da cidade (moradia, comércio, serviços e transporte coletivo).

Em relação às experiências de cidades inteligentes – do conhecimento, ou outro conceito que pode ser atribuído aos tecnopolos –, constituídas na Europa ou nos Estados Unidos, a análise de Carlos Leite é de que exceto o caso de 22@, em Barcelona, recente e exitoso, as experiências européias do final do século XX foram forçadas, criando-se tecnopolos em lugares sem nenhuma tradição na atividade produtiva escolhida. A tentativa sempre foi a de reproduzir os casos do Vale do Silício, da Terceira Itália ou da Route 66 (Boston), que foram experiências espontâneas. Leite afirma, ainda, que mais recentemente, e após analisar os erros já cometidos em casos anteriores, a Inglaterra desenvolveu uma agência de inovação e economia criativa que desenvolve políticas para inúmeras áreas inglesas, com êxito. "A ideia é pulverizar incentivos e facilitar vocações existentes", finaliza.

Voltando um pouco ao conceito de “cidade do conhecimento”, Fábio Duarte prefere classificar o 22@, de Barcelona, como um projeto de “cidade inteligente”. Sua explicação é de que na primeira noção, trata-se de uma região que coloca foco na produção do conhecimento. É quando uma região cria um parque tecnológico a partir de um campus já existente no local. Já a “cidade inteligente” é diferente, pois ela é desenvolvida quando o poder público percebe que tem um espaço que tem possibilidade de se transformar. É o caso de uma área industrial relativamente próxima ao centro, que está se esvaziando. “Percebe-se que uma deficiência se transforma em um trunfo; com acesso a transporte, energia instalada, cria-se uma diferença. E então, nesse novo espaço, produz-se conhecimento, tecnologia, inovação”, diz Duarte. A “cidade inteligente” vai fazer isso. O que é permitido pelo tipo de atividade da Sociedade da Informação, pelas atividades que exigem muito mais um capital intelectual do que grandes espaços, maquinário, uma extensa mão-de-obra, permanência no local de trabalho etc. É a cidade se reinventando de acordo com os novos tempos.


09/02/2011

Ensino de arquitetura e urbanismo: O Brasil perdeu o rumo?

Ensino de arquitetura e urbanismo: O Brasil perdeu o rumo?
por Carlos Leite*


O projeto aponta uma sugestão para a desterritorialização advinda da implantação dos linhões de alta tensão, recorrentemente construídos nas cidades como infraestruturas meramente técnicas, sem construir urbanidade. A área focada é o Jaguaré e a sugestão de ativamento do território, um equipamento público em múltiplas cotas. Autor: Gustavo Delonero, FAU-Mackenzie, 2010.




Recém publicado na Revista AU (fevereiro 2011)


"O homem que não lê bons livros não tem vantagem sobre o homem que não pode lê-los."
Mark Twain, 1835-1910.

O ensino de arquitetura no Brasil não vai bem. Num pais que soube inserir-se entre as principais potencias da arquitetura mundial com obras de excelência e com a construção de uma escola nacional, é surpreendente o panorâma do ensino atual.

Minha argumentação sustenta-se em seis questões essenciais:

Vive-se uma massificação impressionante na educação superior do pais e o ensino de arquitetura infelizmente não é exceção. Massificação com mediocrizacao. 197 escolas cuja qualidade média é baixa. Uma falácia da pseudo democratização do ensino superior cuja face real é a transformação do ensino em negocio de alta e fácil lucratividade. Abrem-se escolas, faculdades e universidades como se abrem padarias no Brasil de hoje. Há que se discutir urgentemente este modelo que vem sendo adotado no pais. ´A título de especulação: a prestigiosa Universidad Nacional Autônoma de México (UNAM) possui em seus vários campi quase meio milhão de estudantes. A Universidade da Califórnia, terceira melhor universidade pública do mundo, possui mais de 220 mil alunos em seus 10 campi. Se a questão é de atender demanda crescente, não seria mais interessante as boas e mais tradicionais escolas de arquitetura (públicas e privadas) oferecerem mais vagas ao invés delas serem ofertadas por estas escolas ordinárias que se espalham pelo pais?

Há uma burocratização dispersiva do ensino de arquitetura que leva perigosamente å ignorância. Excesso de normas e regras que culminam num sistema que se pauta, essencialmente, por uma postura meramente tarefeira cujo sintoma maior é o excesso de disciplinas onde, literalmente, mais tem sido menos. O tão comentado currículo mínimo é mínimo mesmo na maioria das escolas e leva ao excesso burocrático. Nas melhores escola do mundo um termo (ou semestre letivo) possui 4 ou 5 disciplinas. Por aqui se tem 10, 13 disciplinas. Resultado: tarefismo com pouco conteúdo e alunos dispersos. O segredo por lá: os studios (ateliers de projeto) recebem professores de diferentes conteúdos e enfoques, não apenas o professor “de projeto”. Visite-se, por exemplo, um studio na Universidade Columbia e se encontrará com freqüência no debate (e embate) com os alunos, Steven Holl (professor de projeto, responsável pelo studio) e Kenneth Frampton (professor de história) ou Richard Plunz (desenho urbano). Obviamente, não estou pregando a eliminação de disciplinas teórico-expositivas. Apenas alertando para o excesso de compartimentação e lembrando que conteúdos teóricos e práticos podem e devem andar juntos.

Quase não se construiu no Brasil modelos diferenciados de escolas de arquitetura. Diferentemente dos países com forte tradição de ensino de arquitetura, por aqui as escolas homogeinizam-se. Num pais continental  e rico em diversidade isso é totalmente contrário a emergência de riqueza cultural e educacional. Pouquíssimas escolas possuem alguma identidade própria forte, diferenciada, ligada ao seu contexto, tradição de pensamento e cultura locais, de curricula diferenciados e específicos.

Praticamente não há espaço para a experimentação. Investigação como fonte de construção do saber arquitetônico, inovação, especulação conseqüente de idéias, pesquisa em projeto/projeto como pesquisa, enfim, são posturas desincentivadas, de modo geral. “Design thinking” ainda é incipiente em nossas escolas. Não há escola por aqui que se paute como investigativas, diferentemente dos maiores centros internacionais onde sempre há “a” escola onde investigar é a pauta essencial, até para contrapor-se ås demais, de postura mais técnica ou tradicional. A excelência do ensino em Londres dá-se por haver uma tradicional Bartlett School of Architecture (University College of London) e uma experimental Architectural Association (AA). Assim como em Nova Iorque se tem a Universidade Columbia e a Cooper Union. Em Los Angeles se tem a UCLA (University of California, Los Angeles) e a SCI-Arch (Southern California Institute of Architecture). Na Holanda, a TU Delft e o Berllage Institute. Para cada escola mais tradicional, completa, pautada pelo rigor da técnica, há uma escola especulativa, experimental. Aqui criou-se um falso dilema entre ambas e quase eliminou-se o segundo enfoque, mais investigativo. Ficamos mancos.

Falta de rigor. Como tanta coisa no Brasil, há uma carência de postura ética pautada pelo rigor e seriedade no ensino, seja por parte dos gestores institucionais, dos professores ou dos alunos. Modo geral, impera ainda no Brasil o preconceito ås avessas, onde o aluno ou professor sério, estudioso e dedicado é visto como “nerd” ou “cdf”.[i]  O oposto do que se encontra nas melhores escola do mundo, onde este acadêmico é invejado por colegas, admirado pelos professores e alunos e premiado pela instituição. Meritocracia, lá fora, é bem vinda. Vale para os melhores alunos que recebem prêmios por isso, vale para os melhores professores, que são valorizados e disputados pelas melhores escolas. Vale para as melhores escolas que são mais concorridas e recebem mais verbas para ensino e pesquisa. Para isso há critérios objetivos e transparentes baseados em mérito. Não há medo de rankings e avaliações sistemáticas e de resultados amplamente publicizados. Isso na Europa, Japão, Canadá, Austrália e EUA, onde as escolas (em todos os níveis, inclusive graduação) são ranqueadas anualmente e estas informações, publicas. Lugar comum: “Em Harvard a moeda corrente são suas notas. Pouco importa seu pedigree. Para compensar esse recém-adquirido sentimento de inferioridade, você acaba estudando o tempo todo”.[ii]  Visitam-se as bibliotecas e boas livrarias nestes países e se folheiam as publicações com as avaliações das escolas e seus rankings. Sem medo de tornar público quem é, ou está, melhor que quem. É parte intrínseca do rigor que imputa qualidade ao sistema. É democrático perante a sociedade que, ao final das contas, paga pelo ensino (direta ou indiretamente).

Novos enfoques e olhar abrangente. As escolas deveriam ser sempre organismos vivos que se atualizam, mantêm-se minimamente flexíveis e permeáveis å inter e multi-disciplinariedade, alem de novas demandas. Dois exemplos recentes: enfoques sobre a produção imobiliária (Real State programs, como se tem em tantas escolas no mundo) e sustentabilidade na arquitetura e urbanismo (Green Design programs). No primeiro caso, ao manter-se, ainda, preconceituosamente distante do mercado, as escolas de arquitetura deixam de pautá-lo - em São Paulo, surpreendentemente, há um programa de, literalmente “Real State”, em universidade pública, porém não na arquitetura e sim na Escola Politécnica da USP. No segundo caso, as escolas ainda estão tímidas em abraçar o tema com profundidade a amplitude, deixando-o para cursos de capacitação em certificação verde ao invés de enriquecerem o assunto como ele merece. Trata-se, afinal e inclusive, de oportunidade rica de revalorização do profissional arquiteto e urbanista na sociedade contemporânea: desenvolvimento sustentável, å serio, é o maior desafio do planeta no Século 21 e a nossa profissão pode fazer muita diferença no cenário.

Exceções. Como sempre, servem para confirmar a regra geral e, óbvio, são muito bem vindas. Novamente, não há mistério. As poucas escolas que conseguem fugir do panorâma geral têm história, pertencem ås raízes do ensino de arquitetura no Brasil. O pioneirismo - pela história e pela presença dos grandes mestres - das escolas carioca e paulista fizeram emergir instituições de ótima exceção nestas cidades: UFRJ (derivada da pioneira Escola Nacional de Belas-Artes, 1945), FAU-Mackenzie (1947), FAU-USP (1948).  A sabedoria em construir uma tradição própria com inovação e rigor no ensino e pesquisa tem construído a boa reputação de UFRGS, USP-São Carlos, UnB, UFSC, UFPR, UFMG, UFRN, UFBA, PUC-PR, PUC-RS e PUC-MG para citarmos algumas evidências, dentre públicas e privadas.

Assim, vivemos hoje uma situação perigosa. Escolas de arquitetura que estão mais para fabricas de expedir diplomas do que para formar pensadores de construir cidades e edifícios.

E, note-se, (a) a situação já foi alertada antes e (b) incorpora graduação e pós-graduação, conforme Edson Mahfuz mostra: “O objetivo do ensino em qualquer universidade, especialmente as públicas, não deveria ser a mera obtenção de títulos, mas a formação de uma profissão. O ensino de arquitetura sempre teve esse objetivo, durante o tempo em que era exclusivo das universidades públicas. Nada contra as universidades privadas, mas é um fato que nos últimos vinte anos o número de escolas de arquitetura saltou de pouco mais de trinta para mais de cento e trinta. Na grande maioria dessas escolas o ensino de arquitetura tem se afastado da formação profissional e cada vez mais visa a mera concessão de títulos. As escolas públicas não ficaram imunes a esse vírus e até a pós-graduação se viu afetada, pois a exigência feita pelo MEC de que os professores universitários devam ter pelo menos grau de mestre detonou uma verdadeira corrida à titulação.” [iii]



O projeto aponta uma sugestão para a desterritorialização advinda da implantação dos linhões de alta tensão, recorrentemente construídos nas cidades como infraestruturas meramente técnicas, sem construir urbanidade. A área focada é o Jaguaré e a sugestão de ativamento do território, um equipamento público em múltiplas cotas. Autor: Gustavo Delonero, FAU-Mackenzie, 2010.

Meu argumento geral é de que isso não se reproduz mundo afora.


O Brasil tem 197 escolas de arquitetura e urbanismo e população de 190 milhões de habitantes. Aproximando-se: 1 escola para cada 970 mil habitantes.

Vamos ås situações em alguns países de produção arquitetônica, e acadêmica, consagrada:

EUA: 96 escolas e população de 310 milhões de habitantes. 1 escola para cada 3,2 milhões de habitantes.

Canadá: 11 escolas e população de 34,3 milhões de habitantes. 1 escola para cada 3,1 milhões de habitantes.[iv]

Franca: 22 escolas e população de 65,4 milhões de habitantes. 1 escola para cada 2,9 milhões de habitantes.

Espanha: 29 escolas e população de 46,1 milhões de habitantes. 1 escola para cada 1,6 milhões de habitantes.

Reino Unido: 43 escolas e população de 60,9 milhões de habitantes. 1 escola para cada 1,4 milhões de habitantes.

Å massificação do ensino no Brasil alia-se outro fator agravante: a ausência de exame de ordem.

Nos EUA, Canadá e Reino Unido – para ficar em países em que já trabalhei – o exame de ordem não apenas existe, como é rigorosíssimo.  Nos EUA, o futuro arquiteto estuda, em média, seis anos em período integral (essa balela de estágio enquanto se estuda é outro vício pernóstico nosso), para posteriormente ser trainee na práxis (mercado ou setor publico) e, então, submeter-se ao exame de ordem: exaustivo, realizado em vários dias de provas e com média de reprovação de 70%.

Resumo da ópera: não é fácil e nem para qualquer um tornar-se um arquiteto ou urbanista nestes países. Exige muito estudo, seriedade, rigor. Suor, lágrimas e paixão. A recompensa? Reconhecimento da sociedade. A profissão é valorizada, porque não é mediocrizada.

O trabalho lança alternativas para o morar em áreas periféricas e de ambientes que deveriam ser protegidos, porém, recorrentemente se vêem ocupados por favelas. A reconfiguração de fundo de várzea em área de favela na Zona Norte de São Paulo aponta para possibilidades de resgate das águas, de novas conexões e de um novo morar, para além das soluções paliativas que ocorrem normalmente nos programa de “urbanização de favelas”. Autora: Marcela Riani, FAU-Mackenzie, 2010.





Ruth Verde Zein, que, como tantos outros colegas – todos, com muito maior sapiência que eu - estuda as questões sempre difíceis e complexas acerca do ensino de projeto em arquitetura, suas formas e conteúdos, joga boa luz no tema: “A universidade, e dentro dela o curso de arquitetura, não existe apenas para “treinar” os estudantes para que saibam responder de maneira prática determinadas demandas concretas, mesmo que paradigmáticas (ou seja, com um certo grau de generalidade); mas igualmente para prepará-los para a produção de conhecimentos novos, seja sabendo responder casos não paradigmáticos e situações inusitadas, seja sabendo exercitar, também criativamente, os cada vez mais amplos domínios da disciplina arquitetônica - que embora ainda esteja, e sempre estará, centrada no projeto, não se limita absolutamente a ele”. [v]

Não construiremos maior qualidade no ensino de arquitetura e urbanismo sem debater todos os temas com transparência e sem pusilanimidade. O professor Francisco Lauande deu mostra auspiciosa: “A educação deve ser encarada como assunto de segurança nacional. A universidade deve fomentar a pesquisa e servir para a formação de cidadãos pensantes. Ela não pode se prestar somente ao papel de uma mera indústria cujo sentido da existência seja limitado à “democratização” do diploma...Definitivamente, a cultura do “se dar bem“ ou a do “jeitinho” não condiz com uma sociedade que – em tempos de “mensalão” e dólar na cueca – se mostra sedenta por mais ética e que está cansada de presenciar o futuro do país sendo apoucado pelo sentido de coletividade subordinado ao lado mais obscuro do individualismo”.[vi]



O trabalho lança alternativas para o morar em áreas periféricas e de ambientes que deveriam ser protegidos, porém, recorrentemente se vêem ocupados por favelas. A reconfiguração de fundo de várzea em área de favela na Zona Norte de São Paulo aponta para possibilidades de resgate das águas, de novas conexões e de um novo morar, para além das soluções paliativas que ocorrem normalmente nos programa de “urbanização de favelas”. Autora: Marcela Riani, FAU-Mackenzie, 2010.









O projeto especula sobre colocar uma barra de moradia coletiva industrializada junto ao território informalmente ocupado, mas de proteção ambiental, de Guarapiranga. Devolver o território nåo urbanizado å cidade, oferecendo å população uma alternativa de morar junto ås águas, resgatando a possibilidade perdida de uma prazeirosa relação cidade-água. Outra alternativa å urbanização de favelas. Autor: Gustavo Delonero, FAU-Mackenzie, 2010.












Há alguns anos uma ex-aluna minha, regressando de Montreal, relatou-me curiosa que, recém-chegada å cidade e apresentando-se arquiteta e urbanista com suas feições de uma jovem de 23 anos, todos se espantavam: “arquiteta, e urbanista, já formada, e com essa carinha de menina? Quantos anos se estuda estas profissões no Brasil?”

Mas nossos alunos são surpreendentes, ainda bem. Apesar de todos os problemas e limitações do sistema, sempre emergem alguns alunos investigativos, genuinamente descontentes com a mesmice e o tarefismo do sistema. Sabem que se formarem arquitetos-urbanistas é muito mais que passar nas dezenas de disciplinas com as notas mínimas ou aprender a detalhar objetos arquitetônicos. Apaixonados pelo estudo da arquitetura, dedicados e estudiosos. Que buscam no território de nossas problemáticas cidades inquietações que determinam pesquisa no projeto e constróem durante alguns meses nos ateliers - através de discussão coletiva de projeto, com professores e alunos juntos e não “fazendo atendimento de projeto” (como se o professor fosse médico) – perguntas interessantes. E destas questões saem projetos como pesquisa.

Tenho certeza de que de algumas de nossas escolas ainda emergem, vez por outra, e apesar do sistema, tais alunos.

As imagens que ilustram este artigo são de dois deles, Gustavo e Marcela, formando-se agora na FAU-Mackenzie. Seus trabalhos refletem uma busca bonita por uma arquitetura na cidade, onde os limites entre arquitetura e urbanismo são fluidos e cujo mote maior é questionar e propor concretamente, como designers, possibilidades de refazer trechos complexos e de enorme exclusão social da metrópole paulista.



* Carlos Leite é professor de projeto na graduação e pós-graduação na FAU-Mackenzie desde 1997. É arquiteto e urbanista com mestrado e doutorado pela FAU-USP e pós-doutorado pela Cal Poly University. Tem participado como professor visitante e coordenador de workshops em ateliers de projeto em diversas escolas no Brasil e Barcelona, Boston, Califórnia, Holanda e Winnipeg. É sócio de Stuchi & Leite Projetos (www.stuchileite.com )

[i] Sugiro que se assista ao depoimento “Reforma de Valores” do economista Fabio Barbosa, presidente do Grupo Santander, mais um da excelente série de vídeos TEDX: “...o sujeito que estuda é solapado, a expressao do ‘cdf’ é trazer para baixo aquele que está lá em cima, para ver se deixam-se todos medíocres...uma inversão de valores do que ocorre lá fora...” (http://www.tedxsaopaulo.com.br/fabio-barbosa/).

[ii]  Gustavo Romano, mestrado em direito realizado na Universidade de Harvard, em depoimento å Folha de S. Paulo, 16/09/2010.

[iii]  Edson da Cunha Mahfuz. O projeto de arquitetura e sua inserção na pós-graduação, Arqtextos Vitruvius, 022.03ano 02, mar 2002.

[iv]  Números extraídos dos institutos/colégios de arquitetura destes países. Nem todos são muito claros relativamente ao numero exato de escola creditadas pelos respectivos órgãos de regulamentação educacional. No caso de países como EUA, Canada e Reino Unido, estou indicando os programas que mais se aproximariam as nossas escolas, ou seja, os M.Arch e não os B.Arch.

[v]  Ruth Verde Zein. A SÍNTESE NÃO É PONTO DE CHEGADA, MAS DE PARTIDA EM LARA, F.; MARQUES, S. (ORG). PROJETAR / DESAFIOS E CONQUISTAS DA PESQUISA E DO ENSINO DE PROJETO. RIO DE JANEIRO: EVC EDITORA, 2003, P. 81-84

[vi]  Francisco Lauande. O exame de ordem para arquitetos. Uma contribuição importante para o ensino da arquitetura, Drops Vitruvius, 012.03ano 06, ago 2005.