8 de jul de 2010

Reinvenção das Megacidades

Reinvenção das Megacidades
por Carlos Leite

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Prêmio Nobel de 2008, o economista Paul Krugman prognosticou que o crescimento das megacidades será o futuro do modelo econômico de desenvolvimento e crescimento. São nas megacidades que se verificam as maiores transformações da vida contemporânea, gerando uma demanda inédita por serviços públicos, matérias-primas, produtos, moradia, transporte e emprego. Trata-se do grande desafio atual para os governos e as empresas, exigindo mudanças na gestão pública e nas formas de governança, demandando maior participação da sociedade e obrigando o mundo a rever os padrões de conforto típicos da vida urbana – do uso exacerbado do carro à redução da emissão de gases.


O desafio é a
reinvenção das megacidades por modelos de desenvolvimento sustentável.

Todo o território da orla industrial de São Paulo, por exemplo, podem se regenerar urbanística e economicamente e gerar uma metrópole mais compacta e mais sustentável. Áreas centrais como da Barra Funda ao Brás, Mooca e Ipiranga, que são desativadas produtivamente e muito pouco habitadas, porém bem localizadas e com ótima rede infraestrutural, estão delineadas no atual Plano Diretor da cidade como Operações Urbanas. Esta é uma rara oportunidade da megacidade de se reinventar, de criar uma cidade compacta dentro da megacidade. Reciclar o território é mais inteligente do que substituí-lo.

Megacidades


Um de cada dois indivíduos mora em cidades. Cerca de 280 milhões deles estão nas megacidades, enclaves urbanos com mais de 10 milhões de habitantes. O número de megacidades se multiplicou nos últimos 50 anos e elas agora concentram 9% da população urbana do mundo. Sua importância na economia nacional e global é desproporcionalmente elevada.

Nas próximas duas décadas, as cidades de países em desenvolvimento concentrarão 80% da população urbana no planeta e é aqui que se encontram os maiores desafios. Lagos, na Nigéria, teve um aumento populacional de 3.000% de 1950 para cá, chegando a 10 milhões de pessoas. No Brasil, São Paulo e Rio de Janeiro – 19,6 e 11,8 milhões de habitantes em suas regiões metropolitanas, respectivamente – enquadram-se como megacidades (cf. Salomao e Rosenburg, Revista Epoca Neg'ocios).
Mas, paralelamente à densidade única dos desafios, há uma rara concentração de oportunidades nas megacidades.

São Paulo

Em 1900, São Paulo tinha uma população de 240 mil pessoas, era uma vila caipira. Para chegar à posição de 5ª maior megacidade do mundo em 2008, passou por uma verdadeira: em 100 anos sua população cresceu 27.000%, e seu território, 40.000%.

A cidade deverá ganhar seis posições no ranking das cidades mais ricas do mundo e figurar como a 13ª em produção de riquezas, em 2020, conforme recente levantamento feito pela PricewaterhouseCoopers. O Produto Interno Bruto da cidade de São Paulo, estimado em US$ 263,2 bilhões, em 2005, deve superar o PIB de cidades como Miami, Hong Kong, Dallas e São Francisco, em 2020. A cidade é sede de 63% das empresas internacionais instaladas no país e de 38 das 100 maiores empresas nacionais, segundo a pesquisa “Urban Age São Paulo”, conduzida por Luci Oliveira e Ben Page.

Mas quais os limites de São Paulo como megacidade da oportunidade?

Para São Paulo evoluir no cenário mundial de competitividade, será preciso enfrentar enormes desafios. Reinventar-se pressupõe melhorar os índices gerais de qualidade de vida, reduzir os níveis de desigualdades sociais e econômicas, diminuir o volume de tráfego de veículos e a má qualidade dos combustíveis, aumentar a quantidade de áreas verdes e melhorar a qualidade do ar e melhorar os serviços de necessidades básicas, especialmente na área da saúde.

Densidade e sustentabilidade

Cidades sustentáveis são, necessariamente, compactas e densas. Maiores densidades urbanas representam menor consumo de energia per capita: em contraponto ao modelo “Beleza Americana” de subúrbios espraiados no território com baixíssima densidade, as cidades mais densas da Europa e Ásia são hoje modelos na importante competição internacional entre as “Global Green Cities”, justamente pelas suas altas densidades.

São Paulo possui baixa densidade e isso é insustentável: em média, há 29 habitantes por quilômetro quadrado. Nova York possui 53 e Bogotá, 60. Assim, a megacidade paulistana aproveita muito pouco a rede infraestrutural existente na área central e ocupa, sem planejamento, suas periferias, além de gerar imensos problemas de mobilidade e acessibilidade. Os dados recentes mostram que apenas 37% da população utiliza transporte público, contra 57,2% ,em Bogotá.

Desafios e oportunidades

A reinvenção urbana exige investimentos gigantescos – e representa uma enorme oportunidade de negócios para o setor privado. Não é necessário apenas construir novos bairros, inaugurar novos parques ou expandir os sistemas de metrô. A recauchutagem urbana inclui reformar instalações obsoletas – como os velhos encanamentos de Londres, repletos de rachaduras por onde vazam milhões de litros de água" (cf. Salomao e Rosenburg, Revista Epoca Negocios).

O capital territorial e o novo potencial estratégico das megacidades são os problemas abordados em recente e instigante trabalho da Siemens. O projeto resume as principais descobertas de um estudo global e exclusivo sobre as megacidades reunindo dados e avaliando as perspectivas de 500 stakeholders de 25 dessas megacidades. Dentro deste quadro complexo, o estudo apresenta um retrato fascinante e valioso de como os desafios são priorizados e quais as melhores soluções de infra-estrutura que permitirão melhorar a economia local, o meio ambiente e a qualidade de vida nas megacidades.

Seis grandes desafios emergem do estudo:

1. A governança das cidades tem de se adaptar ao desafio de proporcionar soluções holísticas nas vastas regiões metropolitanas.

2. Os administradores das cidades têm que descobrir o equilíbrio entre três preocupações que se sobrepõem: competitividade econômica, meio ambiente e qualidade de vida para os residentes urbanos.

3. O desemprego é o principal desafio econômico.

4. A poluição do ar e os engarrafamentos são as principais preocupações ambientais.

5. Os stakeholders veem os transportes como o principal problema de infraestrutura e a prioridade principal para investimentos.

6. O setor privado tem um papel a desempenhar no aumento da eficiência das megacidades.

Reinvenção

Há pelo menos duas questões que todas as megacidades do planeta enfrentam: mudanças climáticas e desigualdade social. Mais da metade da população está nas cidades e uma em cada três pessoas vive em favelas. Na maioria das situações, as favelas estão em áreas periféricas que não deveriam estar urbanizadas, são de proteção ambiental. Ou seja, o desafio urgente é a reinvenção da cidade com base em um modelo socioambientalmente mais sustentável.

Curitiba implementou uma invejável práxis de planejamento urbano eficiente onde se destaca o sistema de corredores de ônibus implantado ao longo dos corredores de adensamento residencial. Paris hoje lembra bicicletas e ciclovias. Londres remete aos pedágios urbanos que atenuaram o antes insuportável trânsito na cidade. Bogotá construiu 300 quilômetros lineares de ciclovias, reurbanizou suas favelas e criou uma imensa rede de parques urbanos.

Passados alguns meses de imersão em forte crise econômico-financeira mundial, um dos poucos consensos emergidos é o da necessidade dos fortes investimentos públicos e de um gerenciamento republicano maior. As megacidades surgem como natural foco de recepção destes recursos.

A oportunidade está aí: São Paulo pode usar os seus territórios desativados para criar uma cidade mais interessante. Mais humana. Mais democrática. Mais viva. Mais sustentável.

> Esta 'e versão resumida do artigo Megacidades e Desenvolvimento Sustentável, publicado na Revista DOM, Fundação Dom Cabral, no. 9, 2009 (incluindo todas as notas e referências)
> Também disponível em slideshow
> Propostas para a Reestruturacao da Orla Ferroviaria (Diagonal Sul), desenvolvemos desde 2002:
_Carlos Leite, Doutorado FAUUSP, 2002
_Carlos Leite e Mario Biselli, Mooca-Antarctica, 2004
_Carlos Leite e Nadia Somekh, Urban Age/London School of Economics, 2009
_Carlos Leite e equipe, Urban Age/London School of Economics, 2009