14 de jul de 2010

A Era da Estupidez

“A Era da Estupidez”
Hamilton de França Leite Júnior*

Vivemos o que um recém-lançado filme Inglês sobre alterações climáticas diz em seu título: a “Era da Estupidez”. Na película, um sobrevivente solitário, no mundo devastado no ano de 2055, exibe cenas de catástrofes naturais dos dias de hoje. E não economiza no questionamento: “Por que nós não impedimos as mudanças climáticas quando tivemos a chance?”

E por que nós, profissionais atuantes no mercado imobiliário, bem como nos demais segmentos produtivos, não estamos debruçados sobre esta questão com a importância e urgência que ela merece?

Uma pesquisa realizada pela Bayer Consulting, com 754 executivos do mercado imobiliário americano (em sua grande maioria empreendedores imobiliários e proprietários de imóveis), mostra que o principal fator que os desencoraja a desenvolver “construções verdes” é o custo da certificação. Este valor, segundo a Northbridge Environmental Management Consultants, pode variar entre 0,2% e 0,4% do preço de venda do imóvel. Muito pouco para justificar a paralisia do setor. A falta de conhecimento e a dificuldade de quantificação dos benefícios e o aumento de custos de construção são algumas dentre outras razões declaradas pelos entrevistados.

O World Business Council for Sustainable Development, questionou 1.423 profissionais da área, oriundos de vários países, sobre qual porcentagem pensam que o setor imobiliário contribui para as emissões de gases de efeito estufa no planeta. A média das respostas, inclusive dos brasileiros, foi 19%, menos da metade da média atualmente adotada, que é 40%.
Outra pergunta deste trabalho foi em relação ao custo estimado de um edifício sustentável comparado a um convencional, cuja média das respostas foi 17%. Segundo um estudo conduzido pela conceituada consultoria inglesa Davis Langdon com 221 “edifícios verdes”, em metade deles não houve aumento de custos de obra e na outra metade houve apenas uma modesta elevação, variando entre 1% e 2%.

Precisamos conhecer detalhadamente quais são os custos de implantação de cada ação sustentável e quais seus respectivos benefícios, principalmente durante a fase de operação dos edifícios, onde se concentra cerca de 80% de todo consumo de recursos naturais e financeiros, considerando-se seu ciclo de vida completo. Isso sem deixar de levar em consideração as diversas tipologias de empreendimentos e as inúmeras combinações de tecnologias possíveis de serem implantadas dentro da realidade socioambiental brasileira.

Estamos num ciclo vicioso, um verdadeiro jogo de empurra-empurra, onde o governo e as empresas investem muito pouco em pesquisas e, consequentemente, os pesquisadores não têm recursos suficientes para realizar estudos aprofundados.

A grande imprensa não divulga os benefícios da construção sustentável, pois existem poucas informações relevantes nesta área no País. Os usuários não conhecem os benefícios durante a fase de ocupação das edificações porque não há divulgação.

Os incorporadores justificam que não os desenvolvem porque custam mais caro e os clientes não pagam nada mais por isso. Os arquitetos argumentam que os incorporadores não permitem a especificação de tecnologias sustentáveis nos projetos. As construtoras, porque os projetos não as contemplam e assim o mercado imobiliário faz coro ao resto da população contemporânea, que pode ficar conhecida na história futura como os que viveram na “Era da Estupidez”.

*Hamilton de França Leite Júnior é Diretor da Casoi Desenvolvimento Imobiliário e Diretor da Vice-Presidência de Sustentabilidade do Secovi-SP.